… em como é não enxergar.

Padrão

Uma irritação nos olhos me deixou na semana passada três dias praticamente sem enxergar. Míope, com mais de seis graus em um olho e mais de sete em outro, não é possível ver nada com nitidez a um palmo de distância do nariz. Sim. Um palmo. Sem lentes de contato ou óculos, sou uma negação. Com os óculos sem uma das lentes, não tinha como usá-los – a não ser em casa, por causa da situação ridícula que eu me encontrava com eles. E, para os novos, era preciso conferir o grau antes. Imagine a minha dificuldade!

Pois bem. Já na segunda-feira, tive que sair – de ônibus. Foi um tira-e-põe de óculos sem fim. Põe para atravessar a avenida. Tira quando chega no ponto. Põe de novo para ver o nome do ônibus que se aproxima. Tira dentro ônibus. E assim cheguei até onde precisava. Na volta, já na lotação, escuto “nossa! Que coincidência, hein?”. Sem distinguir o rosto da pessoa, o cérebro faz um esforço para identificar rapidamente quem era o dono da tal voz. Devidamente reconhecido, vamos conversando até o momento dele descer.

À tarde, com meu marido, vou até o banco. Ele sempre à frente, claro, para que eu não pagasse nenhum mico. Enfim, enquanto aguardávamos o atendimento, meu marido fazia testes para saber o que eu enxergava ou não. Terrível! O pior é que ele ainda ria quando eu perguntava coisas do tipo “onde” ou “cadê” ou ainda “do que você está falando?”. Assim que nos chamaram, fomos até a mesa conversar com o atendente. A área onde ficam as mesas é diferenciada por ser acarpetada. Evidente que vi a diferença de cor, mas não sabia se tinha um degrau ou não ali. Pra mim, tinha. Mas na verdade, não. Ergui um pouco mais o pé e dei aquele passo todo estranho porque estava no mesmo nível. “Será que alguém viu?”.

Mas angústia mesmo é ver apenas uma mancha preta no lugar dos olhos das pessoas. Ainda mais para mim, que considero o olho-no-olho em uma conversa fundamental.

Nesse mesmo dia, ainda encontramos uns amigos da igreja. Eu perguntava baixinho para o meu marido: “O fulano está aí, né? A beltrana? Acho que é a voz dela”. Tiver que reconhecer a todos pela voz. Ah! E conhecer a voz de outros também, porque o rosto mesmo, só vi como era ontem, quando nos encontramos novamente.

Depois de tudo isso, ter retornado ao oftalmo e dilatado as pupilas, fiquei sabendo que sou um pouco menos míope do que pensava. Até então, sabia que os meus graus eram 8 e 8,5. Como falei no início, um dos olhos é 6,75 e no outro 7,25. Mas isso não minimiza a minha dificuldade em não enxergar.

Fiquei pensando naquelas pessoas que um dia tiveram visão e, por algum motivo, hoje não a tem mais. Por causa disso é que até hoje não tive coragem para operar. Mesmo conhecendo pessoas que fizeram e sabendo que a cirurgia é bem simples. Fico imaginando como deve ser não distinguir as cores, não contemplar uma paisagem, não ver rostos, não poder admirar um quadro, não saber como é a decoração de algum lugar, não saber como é a roupa que visto, como está o meu cabelo ou a minha maquiagem… Coisas simples, do dia a dia. Complicado mesmo seria passar pela mesma situação que os personagens de José Saramago no livro “Ensaio sobre a cegueira”. Sei que se trata de uma ficção em que o escritor vai ao extremo, retratando uma cidade inteira que perde repentinamente a visão.

Preciso dizer que não enxergar não é o fim do mundo. Seria injusto da minha parte apenas reforçar o lado negativo. Alguém até poderia perguntar: “e por acaso há algo de bom em ser cego?”. Infelizmente não tenho contato com alguém próximo e não sei de fato como é viver assim. Evidente que é necessário se adaptar a essa realidade, como aprender a ler em braile, por exemplo. Sem contar a capacidade auditiva e a sensibilidade tátil que aumentam consideravelmente.

No fim, acho que tudo é uma questão de como encaramos as dificuldades e de como abraçamos as oportunidades que aparecem. Fazer da vida um peso ou uma alegria, só depende de nós mesmos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s