Nas lições de vida que as pessoas nos dão

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Ultimamente tenho feito algo que não é muito comum a mim: conversar com as pessoas no ônibus ou no metrô. Não sou o tipo de pessoa que “puxa” assunto com quem nunca viu na vida, mas tenho tido os meus motivos para isso.

Indo para o meu ensaio ontem, enquanto guardava meu troco, ouvi um rapaz perguntar, mesmo com vários cartazes avisando que não, se ali fazia recarga do Bilhete Único. Rispidamente o funcionário respondeu que “não, só lá em cima no terminal”. E o rapaz insistiu. “Mas só lá em cima? No terminal?”. E a resposta veio no mesmo tom: “só lá no terminal”.

Quando olhei para o lado, na mesma hora vi que se tratava de uma pessoa com deficiência visual e me ofereci para ajudá-lo. Resumindo a história, a conversa estava tão boa que eu o acompanhei até a estação Paraíso e depois voltei para a Ana Rosa onde eu deveria descer.

Não sei quantos anos tem o Abadi. Só sei que ele tem baixa visão e enxerga apenas 5%. Isso desde que era bebê, com menos de dois anos de idade. Como eu sou míope e não vejo nada com nitidez além de um palmo de distância do meu nariz literalmente, tentei entender como é que ele enxerga. Não consegui. O fato é que só enxerga alguma coisa a uma distância ainda menor. Mas isso não chega a ser um problema por completo ou impedimento.

O Abadi é estudante de Direito e está no 7º semestre. Grava as aulas num MP4, que descarrega no computador toda semana. Ele também não usa a bengala a todo instante. Só quando está no ponto de ônibus. “Se não, como eu vou saber que o ônibus está vindo? Se eu não estou com a bengala, podem pensar que eu sou analfabeto”. Interessante… alguém pensar que ele não sabe ler o incomoda mais do que a deficiência. E o mais importante: Abadi é feliz e sabe que todos os dias Deus o ajuda. “Se não fosse assim, como seria, não é verdade?”

Hoje no ônibus conversei com um senhor, o Morais. Quase 60 anos, maratonista. Começou a correr há uns 15 anos. Quem vê aquele homem magrinho, não consegue imaginar que um dia ele chegou a pesar 110 kg. Todos os dias às seis da manhã, já está no parque fazendo alongamento para começar o treino. Sua próxima competição é no mês que vem, na Maratona (maratona, 42 km) de São Paulo. Quando volta para casa, toma um café reforçado e vai para o trabalho.

O Abadi e o Morais me fizeram pensar. Aqui eu ainda poderia citar os meus pais, meus tios, minha avó e tantas outras pessoas com histórias diferentes e que nos fazem admirá-las. Mas a pergunta que fica é: quando as pessoas olham para mim, o que será que elas veem?

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