Eu só queria chegar na Móoca

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Anteontem não foi um dia bacana pra mim. Depois de uma semana tomando o antialérgico indicado pela médica em caso de uma nova crise de rinite, o remédio deixou de fazer efeito, sabe-se lá por que.

Com tosse, absolutamente fanha, com dores na testa e nas maçãs do rosto, passei a tarde daquele dia no pronto-socorro. Novos remédios para aliviar o desconforto e aguentar até a consulta, agendada para daqui dois dias.

Para ajudar, anteontem acordei com um dos olhos muito irritado; super vermelho e inchado. A otorrino disse que não poderia ser por causa da alergia, porque foi em um olho só. Eu deveria procurar um oftalmo.

Um dia inteiro de óculos, uma tarde no PS e à noite, visita a outro PS. Tinha que me certificar de que não era conjuntivite. Podia ter ido no outro dia de manhã, mas pra não perder um compromisso, fui à noite mesmo. Não antes sem dar uma olhada no Google Mapas. Afinal, o único local em quem atendem pelo convênio fica na Móoca, zona leste de São Paulo, e eu moro em São Bernardo.

Saindo de casa, meu marido sugeriu irmos por Santo André, porque, pelo horário ainda deveríamos pegar um pouco de trânsito. Mas mal entramos na Avenida dos Estados, parou. Ele não pensou duas vezes: digitou no GPS do celular “Rua do Oratório” e me falou para virar a primeira rua que desse à direita. Não demorou muito vimos placas indicando a tal rua. Maravilha! Só seguir até o número correto. Mas a gente segue, segue, segue e nada. Anda mais um pouco e nada. “Ainda é Rua do Oratório. Pode continuar”.

Uma verdadeira agonia dirigir por um lugar que você não conhece, sem ver pontos de referência que te deem noção de algo, e ainda sem ter a menor ideia de onde vai dar. Inúmeras vezes perguntei: tem certeza de que é isso mesmo? “É sim, pode ir”, foram as respostas. Até que vejo um terminal de ônibus à frente: São Mateus. “Osmar! Nós estamos em São Mateus! São Mateus! O que a gente está fazendo aqui? Você tem noção do quanto a gente está longe?”, gritei incrédula. E ainda ouvi: “Ué? Você nunca veio em São Mateus?”. “E por que é que eu viria aqui? Num lugar longe desses?!”. Eu não conhecia pessoalmente o local, mas de tanto ajudá-lo por telefone, indicando o caminho pelo Google, já tenho toda a ZL na cabeça. Eu sabia onde a gente estava. E evidente, tive que rir da situação, de tão absurda que era.

*   *   *

– Essa é a rotatória que vai pra Ragheb Chofi, Adélia Chofi e Avenida Sapopemba.

– Eu sei onde essa rotatória vai dar! O problema é que a Móoca está lá do outro lado.

– Segue o ônibus. Avenida Sapopemba, Gabriela. Gabriela, Avenida Sapopemba. Ali não! Aqui, aqui! Não falei pra você acompanhar o ônibus?

– E como é que eu vou saber? Você fica apontando pra cá e pra lá. Eu não sei onde eu tenho que ir!

Risos e a repetição, com a ênfase dos gestos:

– Gabriela, Avenida Sapopemba. Avenida Sapopemba, Gabriela.

*   *   *

Olho para o marcador da quilometragem. Os três números finais: 167. “Quero só ver quanto vai marcar quando conseguirmos chegar lá”. Os dedos do meu super co-piloto não param no celular. Novas consultas ao GPS para sabermos o melhor caminho. “Vamos pela Anhaia Melo, que vai ser mais rápido”. Mais rápido??

Entro à esquerda e vejo a Anhaia Melo logo embaixo. Anda, anda… Tem um pedaço que ela fica mais estreita.

– A gente está na parte que é perto da casa da minha tia?

– Sim. Onde você achou que estivesse?

– Mas a minha tia mora na Vila Alpina! A gente está muito longe ainda!!

– Longe nada. Você estava lá em São Mateus.

Mais risos.

Uma hora, sim, uma hora, e muitos, uns 15 quilômetros pelo menos depois, chegamos finalmente ao pronto-socorro, na Móoca. Mais uma hora de espera até ser chamada para uma consulta que não demorou nem dois minutos, literalmente, para ouvir do oftalmo que era uma mera irritação, não havia nenhum machucado por causa da lente. “Vou indicar um lubrificante e compressas de água filtrada gelada. Pode ser que vire uma conjuntivite. Pode ser que não”. A otorrino se enganou. A conclusão a que cheguei é que a irritação era da alergia. Com os remédios receitados por ela, acordei no dia seguinte com o olho bonzinho.

Quanto à volta para casa? O co-piloto dormiu – dou um crédito a ele. Estava cansadíssimo por ter dirigido o dia inteiro e acabou nem tomando um banho antes de me acompanhar – e em apenas 20 minutos, pelo caminho certo, chegamos em casa.

Onde erramos? Ao consultar o GPS, ele traçou a rota para a Rua do Oratório. O detalhe é que era a de Santo André! E não de São Paulo. Simples, não?

– Poxa, não reclama, não. Pelo menos você não ficou parada no trânsito.

– Sorte a sua ter uma esposa como eu, que dá risada em vez de brigar e dar chiliques.

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