Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Padrão

Dizem que, quando não se sabe por onde começar uma história, o ideal é começar pelo começo. Mas hoje esta não é uma solução tão simples assim para mim. São muitas informações na minha cabeça sobre algo que está sendo processado há algum tempo. Como isso tudo precisava de uma ordem, achei melhor escrever.

No ano passado, escrevi aqui sobre a exposição Pérolas Negras, do fotógrafo Miro. Faltaram (e ainda faltam) palavras para expressar o quanto fui impactada por aquele trabalho. Eram imagens de pessoas negras – velhos, jovens, crianças, homens, mulheres. Posso dizer que foi o primeiro marco.

Trabalho em uma universidade e para uma das matérias do jornal, acompanhei um bate-papo com a Ericka Huggins, que foi líder do Partido dos Panteras Negras, nos Estados Unidos, nos anos 60. Por causa disso, mergulhei na história deles e acabei tendo mais contato com a luta dos negros americanos pelos direitos civis – e aqui entram Martin Luther King e Malcom X. E aqui está o segundo marco.

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Com a Ericka Huggins

Deste bate-papo também participaram estudantes do último ano de Jornalismo. O trabalho de conclusão de curso deles resultou no livro reportagem “Fios de Identidade” (faço menção aos autores Amanda Sequin, Luiz Felipe Santos, Rafael Monteiro e Tarsila Isabela pelo excelente trabalho que fizeram. Tarsila, agradeço muito por ter permitido o meu acesso ao livro. Você não tem ideia do quanto isso foi importante!), no qual mulheres e homens negros contam suas histórias de autoafirmação, preconceito e descobertas de si mesmos, todas entrelaçadas por suas relações com o cabelo. Dentre tantas coisas que gravei daquela conversa, eles destacam no livro essa aqui, da Ericka: “Depois, raspavam os cabelos dos recém-chegados, homens, mulheres e crianças. Isso aconteceu em todos os países escravocratas. O penteado dizia muito: de que lugar você vinha e quem você era dentro da sua tribo. Mas aqui você não era nada, então seu cabelo não podia dizer nada”.

O meu cabelo é bem crespo, tal qual o do meu pai. Há vinte e poucos anos, não havia essa variedade de produtos e tratamentos para cabelos afro. Não foi fácil para a minha mãe, que tem cabelo cacheado, cuidar do meu. Também não foi para mim. O que indicavam, ela testava: Henê, pente de ferro quente (coitadinha da minha orelha!), tranças, “canicalon” (nem faço ideia de como se escreve), alisamentos, relaxamentos, produtos que ardiam na cabeça, chegando a fazer feridas. Tudo para deixá-los mais soltos, mais fáceis de cuidar. Mas foi só aos 22 anos que consegui acertar de um jeito que ficava mais natural e bonito. Foi só aos 22 que o deixei “ser livre”. “Se quiser armar, ok; se não quiser, ok também. Fique do jeito que quiser”. E, assim, assumi meu estilo e passei a ser eu mesma.

Mas até chegar aí, o processo foi looongo. Eu tinha 3 anos e estava no maternal. Para chegar até a sala, os alunos da outra turma tinham que atravessar a minha. Naquele dia estava frio e eu usava um daqueles gorros com a ponta mais comprida que virava um cachecol. Só me lembro de uma das crianças da outra sala ter arrancado o meu gorro e de todas aquelas crianças rindo de mim. Eu nunca esqueci aquela cena e das marcas que ela deixou na minha autoestima.

Aos 3 anos

Aos 3 anos

Quando mais nova, algumas músicas fizeram sucesso. Quem nunca cantou: “meu cabelo duro é assim… cabelo duro, de pixaim…” ou “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”. Nada simpáticas. Hoje, se perto de mim, alguém faz alguma referência ao cabelo crespo como cabelo ruim, ouve um belo e sonoro: “Não existe cabelo ruim. Existem cabelos diferentes: crespo, liso, cacheado, loiro, ruivo. Uns exigem mais cuidados; outros menos. Simples assim”.

Mas, enfim, o tempo passou, eu cresci, amadureci, mudei. E o cabelo acompanhou (mais até do que eu podia imaginar!). Liso, comprido, cacheado, curto…

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Até que chegou a gravidez. O tão sonhado momento de ser mãe. Mas também a hora de deixar qualquer processo químico para trás. Então, antes mesmo fui deixando a raiz crescer naturalmente para me acostumar. Foram nove meses de muito trabalho, principalmente durante o banho, único momento possível de desembaraçá-lo.

Por fim, não deu mais. Com a indicação de um cabeleireiro na 24 de maio (além da Galeria do Rock, é onde o pessoal faz cortes black, tranças e tudo o mais). Fiquei desconfiada. Quando cheguei para conversar, ele cortava o cabelo de um homem (nada de máquina. Era um pentinho na navalha mesmo). “Será que ele vai saber cortar o meu cabelo?”, pensei. Sentei e esperei. Comi algo que tinha na bolsa e joguei no lixo. Para o meu alívio, vários cachos enormes dentro. “É… ele corta mesmo cabelo de mulher”.

Sentei na cadeira e aquele frio tomou conta da minha barriga. “E agora? E se ele não ficar bom? Daí já era. Curto, não tem o que fazer. Mais comprido, ainda dá para prender…”. A cada passada de tesoura, eu ficava mais gelada. Quando tirei o excesso de água após ele terminar, olhei no espelho e curtinho, como nunca tinha usado. Passava a mão… nada daquele caimento mais. A cabeça leve. “E aí? Gostou?”. Aos poucos o sorriso veio e, ainda passando as mãos nele, respondi: “não é que eu gostei?”.

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Um tempo depois, eu ainda precisava tirar o restinho de relaxamento que havia nas pontas. Voltei na galeria, mas acabei indo em outro cabeleireiro. Pior coisa que fiz. Ele foi secando e cortando, secando e cortando, secando e cortando até que terminou e molhou. E o cabelo encolheu. Muito. Mais do que eu esperava. Meu dia acabou. Nem quis mais saber do passeio que eu faria com meu marido pelo centro de SP. Em casa, eu só chorava, porque me sentia feia, horrível. Por três dias eu era incapaz de me olhar no espelho sem chorar. Maquiagem? Num espelho pequenininho desses de bolsa. E foram alguns meses usando faixinhas para me sentir mais feminina até o cabelo crescer, ficar num comprimento decente e num estilo black legal.

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Com meu primo Pedro, companheiro de careta

Enfim meu filho nasceu e com ele vieram também várias crises de autoestima. Ele mamava a cada duas horas, eu mal conseguia dormir. Tomar banho e comer tranquilamente eram luxos impossíveis naquele momento. Brinco? Algo que eu não fico sem, nem lembrava de colocar! Sem contar que eu já sou magra e emagreci ainda mais amamentando (mesmo comendo duas vezes mais! E olha que eu como bem, hein?). Olhar para mim mesma no espelho foi novamente algo difícil até conseguir dar um jeito no cabelo.

Livrar-se do alisamento e relaxamento com cortes radicais para tirar toda a química virou moda. Passei pela experiência de ficar com o meu cabelo do jeitinho que ele é: muito crespo, com micro cachos, mas não me adaptei. Estava num comprimento em que todo mundo achava que estava ótimo. Mas, definitivamente, para mim não dá. Muito trabalhoso, demandava um tempo incompatível sendo mãe de um bebê e já de volta ao trabalho.

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Já sem química

Nove meses depois, a Eliane – cabeleireira que tem um salão na Liberdade e há mais de 20 anos trabalhando com cabelos afro – me salvou! Permanente afro na cabeça, é hora de recomeçar. Minha vida voltou a ser mais prática e eu mais feliz!

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