Não sei se quero um diploma

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Não sei se quero um diploma

Tudo começou quando perguntei para a moça que trabalha comigo: “E a faculdade? O que decidiu?”. Dias antes ela comentou que estava pensando em trancar o curso por questões financeiras e por “não estar mais a fim”.

Quanto à questão financeira, nem tenho o que discutir. Mas existem outros argumentos para a segunda parte da resposta; argumentos que fizeram o Tico e o Teco aqui dentro trabalharem bastante, fazendo conexões e costurando vários assuntos enquanto eu a ouvia.

Um dos motivos é a imaturidade das pessoas da sala. Ela não tem paciência para lidar com quem não está realmente interessado em aprender. Gente que só estuda ou lê algum texto porque “vai cair na prova” ou porque “vale nota”. “Pessoas rasas” como ela mesma disse, que estão ali por causa de “uma convenção social”, que é o diploma. E quando há chance de alguma aula ser mais profunda, não dá porque “as pessoas acham legal ‘tirar’ o professor”.

O sentimento que ela tem é de “jogar no lixo mil e poucos reais por mês”. O que gostaria mesmo era usar esse dinheiro para fazer outros cursos que realmente lhe interessam ou viajar o mundo. Não que desconsidere totalmente a faculdade, pois sabe que há coisas importantes acontecendo ali. Mas entende que poderia aprender bem mais e de outras maneiras. “Tem gente na faculdade com 60 anos. Se eu, com 30, entender que preciso, volto. Por que não?”. Ah! Ela tem 24 anos e, a meu ver, é um desses “pontinhos fora da curva” com quem eu tenho tido a satisfação de conviver.

Mas essa conversa me levou a fazer três considerações:

1. Vivemos num contexto em que tudo tem mudado rapidamente, exigindo nossa adaptação.

As novas tecnologias mudam comportamentos, mudam relações. O Uber está aí mostrando isso. Em São Paulo, as manifestações feitas pelos taxistas contra esse tipo de transporte não impediram a regulamentação do serviço na cidade. Pelo contrário. Abriu espaço para concorrência e outras empresas também se cadastraram na prefeitura. Como consequência, os motoristas de táxis agora estão buscando alternativas para continuar atraindo clientes.

Já a conversa que tive me fez pensar como as pessoas estão mudando e a forma como adquirem o conhecimento também. Você não precisa mais estar em uma sala de aula, por exemplo. Pode estar na sua casa mesmo. Há cada vez um número maior de cursos a distância, online, alguns pagos, outros tantos gratuitos e com professores de instituições renomadas. Eu mesma já aproveitei aulas da Berklee College of Music, referência na área musical.

A internet permite que você estude o que quiser, de onde quiser, na instituição que considerar mais adequada e seja o único responsável por construir sua grade de estudo. Sim, isto sai do convencional, muito. Ainda bem, porque a diversidade torna tudo mais rico. Porém, é preciso saber traduzir e aplicar este conhecimento. Assim, chegamos à consideração seguinte.

2. Há um desafio para as duas partes: pessoas saberem estruturar e mostrar que dominam o conhecimento adquirido de modo não convencional e as empresas estarem abertas a esse novo perfil de profissional. 

Ainda hoje existem empresas que só admitem candidatos formados pela universidade A ou B ou faculdades C, D e E, dependendo do curso. Quais as garantias de que estes profissionais são os melhores? Quem nunca ouviu “quem faz a faculdade é o aluno”? O diploma de uma determinada instituição não é garantia de um bom profissional. Assim como a ausência do documento não constata que a pessoa não se encaixa no perfil. Conheço pessoas não diplomadas que são excelentes profissionais. Inclusive, hoje ocupam cargos de diretoria.

3. As instituições de ensino também precisam se adaptar.

Se, de um lado estão os alunos que apenas querem um papel, um título ao final do curso, do outro estão aqueles realmente empenhados em aprender e saber mais. E este segundo grupo, tem o perfil de buscar a informação, questionar, não se contentar com pouco. Muitas vezes, esbarram em conteúdos superficiais, disciplinas que poderiam se aproximar mais do que o mercado exige.

Trabalhei por alguns anos em uma instituição de ensino e essa discussão não é nova. No entanto, elas são lentas em acompanhar o que as empresas demandam daqueles que estão em formação. Evidente que há exceções, mas em geral, suas estruturas e diversas instâncias fazem com que esse processo seja ainda mais devagar. Além disso, existem situações que envolvem o MEC (Ministério da Educação).

   *                     *                    *

Voltei daquele almoço com a cabeça borbulhando. Confesso que ainda fiquei alguns dias pensando no assunto. E, nesse caso, a prática tem se mostrado diferente da teoria ou do senso comum, pelo menos para mim. Jovens de 20 e poucos anos decididos, que sabem o que querem, aonde chegar e quais os meios necessários para alcançar seus objetivos. A diferença está na velocidade. Fazem tudo muito mais rápido.

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