‘Tó, vai andar!

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Estava baixando algumas imagens de pais e filhos para fazer uma homenagem de Dia dos Pais, quando me deparei com essa aqui.

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Ela fez com quem me lembrasse de algo que vivi com o meu pai, mais ou menos na mesma idade que o menino da foto. Aos finais de semana, ele tinha o hábito de levar meu irmão e eu ao Ibirapuera para andarmos de bicicleta. Um belo dia, ainda na garagem do prédio, vi que ele pegou minha bicicletinha azul e afrouxou a única rodinha que ainda estava lá para me servir de apoio. Lembro de ter pensado: “o que ele está fazendo?”, mas de não ter dito nada. Entramos no carro e fomos embora.

Na entrada do parque, ele tirou aquela rodinha e falou: “Tó, vai andar”. Ixi! E agora? Montei na bicicleta e dei uma volta enorme com o sorriso de orelha a orelha por ter conseguido aquela proeza! E ele me olhando, de longe.

Tenho poucas recordações da minha infância, mas esta é tão forte! Naquele momento, é como se ele me dissesse: “Vai filha, você está pronta. Se precisar, eu estarei aqui”. Obrigada, pai, por sempre estar ali, me olhando, pronto para me socorrer se eu precisar; mas também feliz, participando de cada conquista.

Essa aqui é de um tempo atrás, com meus pais. Gosto dela porque mostra o sorrisão do "seu" Elias

Essa aqui é de um tempo atrás, com meus pais. Gosto dela porque mostra o sorrisão do “seu” Elias

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Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

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Dizem que, quando não se sabe por onde começar uma história, o ideal é começar pelo começo. Mas hoje esta não é uma solução tão simples assim para mim. São muitas informações na minha cabeça sobre algo que está sendo processado há algum tempo. Como isso tudo precisava de uma ordem, achei melhor escrever.

No ano passado, escrevi aqui sobre a exposição Pérolas Negras, do fotógrafo Miro. Faltaram (e ainda faltam) palavras para expressar o quanto fui impactada por aquele trabalho. Eram imagens de pessoas negras – velhos, jovens, crianças, homens, mulheres. Posso dizer que foi o primeiro marco.

Trabalho em uma universidade e para uma das matérias do jornal, acompanhei um bate-papo com a Ericka Huggins, que foi líder do Partido dos Panteras Negras, nos Estados Unidos, nos anos 60. Por causa disso, mergulhei na história deles e acabei tendo mais contato com a luta dos negros americanos pelos direitos civis – e aqui entram Martin Luther King e Malcom X. E aqui está o segundo marco.

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Com a Ericka Huggins

Deste bate-papo também participaram estudantes do último ano de Jornalismo. O trabalho de conclusão de curso deles resultou no livro reportagem “Fios de Identidade” (faço menção aos autores Amanda Sequin, Luiz Felipe Santos, Rafael Monteiro e Tarsila Isabela pelo excelente trabalho que fizeram. Tarsila, agradeço muito por ter permitido o meu acesso ao livro. Você não tem ideia do quanto isso foi importante!), no qual mulheres e homens negros contam suas histórias de autoafirmação, preconceito e descobertas de si mesmos, todas entrelaçadas por suas relações com o cabelo. Dentre tantas coisas que gravei daquela conversa, eles destacam no livro essa aqui, da Ericka: “Depois, raspavam os cabelos dos recém-chegados, homens, mulheres e crianças. Isso aconteceu em todos os países escravocratas. O penteado dizia muito: de que lugar você vinha e quem você era dentro da sua tribo. Mas aqui você não era nada, então seu cabelo não podia dizer nada”.

O meu cabelo é bem crespo, tal qual o do meu pai. Há vinte e poucos anos, não havia essa variedade de produtos e tratamentos para cabelos afro. Não foi fácil para a minha mãe, que tem cabelo cacheado, cuidar do meu. Também não foi para mim. O que indicavam, ela testava: Henê, pente de ferro quente (coitadinha da minha orelha!), tranças, “canicalon” (nem faço ideia de como se escreve), alisamentos, relaxamentos, produtos que ardiam na cabeça, chegando a fazer feridas. Tudo para deixá-los mais soltos, mais fáceis de cuidar. Mas foi só aos 22 anos que consegui acertar de um jeito que ficava mais natural e bonito. Foi só aos 22 que o deixei “ser livre”. “Se quiser armar, ok; se não quiser, ok também. Fique do jeito que quiser”. E, assim, assumi meu estilo e passei a ser eu mesma.

Mas até chegar aí, o processo foi looongo. Eu tinha 3 anos e estava no maternal. Para chegar até a sala, os alunos da outra turma tinham que atravessar a minha. Naquele dia estava frio e eu usava um daqueles gorros com a ponta mais comprida que virava um cachecol. Só me lembro de uma das crianças da outra sala ter arrancado o meu gorro e de todas aquelas crianças rindo de mim. Eu nunca esqueci aquela cena e das marcas que ela deixou na minha autoestima.

Aos 3 anos

Aos 3 anos

Quando mais nova, algumas músicas fizeram sucesso. Quem nunca cantou: “meu cabelo duro é assim… cabelo duro, de pixaim…” ou “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”. Nada simpáticas. Hoje, se perto de mim, alguém faz alguma referência ao cabelo crespo como cabelo ruim, ouve um belo e sonoro: “Não existe cabelo ruim. Existem cabelos diferentes: crespo, liso, cacheado, loiro, ruivo. Uns exigem mais cuidados; outros menos. Simples assim”.

Mas, enfim, o tempo passou, eu cresci, amadureci, mudei. E o cabelo acompanhou (mais até do que eu podia imaginar!). Liso, comprido, cacheado, curto…

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Até que chegou a gravidez. O tão sonhado momento de ser mãe. Mas também a hora de deixar qualquer processo químico para trás. Então, antes mesmo fui deixando a raiz crescer naturalmente para me acostumar. Foram nove meses de muito trabalho, principalmente durante o banho, único momento possível de desembaraçá-lo.

Por fim, não deu mais. Com a indicação de um cabeleireiro na 24 de maio (além da Galeria do Rock, é onde o pessoal faz cortes black, tranças e tudo o mais). Fiquei desconfiada. Quando cheguei para conversar, ele cortava o cabelo de um homem (nada de máquina. Era um pentinho na navalha mesmo). “Será que ele vai saber cortar o meu cabelo?”, pensei. Sentei e esperei. Comi algo que tinha na bolsa e joguei no lixo. Para o meu alívio, vários cachos enormes dentro. “É… ele corta mesmo cabelo de mulher”.

Sentei na cadeira e aquele frio tomou conta da minha barriga. “E agora? E se ele não ficar bom? Daí já era. Curto, não tem o que fazer. Mais comprido, ainda dá para prender…”. A cada passada de tesoura, eu ficava mais gelada. Quando tirei o excesso de água após ele terminar, olhei no espelho e curtinho, como nunca tinha usado. Passava a mão… nada daquele caimento mais. A cabeça leve. “E aí? Gostou?”. Aos poucos o sorriso veio e, ainda passando as mãos nele, respondi: “não é que eu gostei?”.

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Um tempo depois, eu ainda precisava tirar o restinho de relaxamento que havia nas pontas. Voltei na galeria, mas acabei indo em outro cabeleireiro. Pior coisa que fiz. Ele foi secando e cortando, secando e cortando, secando e cortando até que terminou e molhou. E o cabelo encolheu. Muito. Mais do que eu esperava. Meu dia acabou. Nem quis mais saber do passeio que eu faria com meu marido pelo centro de SP. Em casa, eu só chorava, porque me sentia feia, horrível. Por três dias eu era incapaz de me olhar no espelho sem chorar. Maquiagem? Num espelho pequenininho desses de bolsa. E foram alguns meses usando faixinhas para me sentir mais feminina até o cabelo crescer, ficar num comprimento decente e num estilo black legal.

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Com meu primo Pedro, companheiro de careta

Enfim meu filho nasceu e com ele vieram também várias crises de autoestima. Ele mamava a cada duas horas, eu mal conseguia dormir. Tomar banho e comer tranquilamente eram luxos impossíveis naquele momento. Brinco? Algo que eu não fico sem, nem lembrava de colocar! Sem contar que eu já sou magra e emagreci ainda mais amamentando (mesmo comendo duas vezes mais! E olha que eu como bem, hein?). Olhar para mim mesma no espelho foi novamente algo difícil até conseguir dar um jeito no cabelo.

Livrar-se do alisamento e relaxamento com cortes radicais para tirar toda a química virou moda. Passei pela experiência de ficar com o meu cabelo do jeitinho que ele é: muito crespo, com micro cachos, mas não me adaptei. Estava num comprimento em que todo mundo achava que estava ótimo. Mas, definitivamente, para mim não dá. Muito trabalhoso, demandava um tempo incompatível sendo mãe de um bebê e já de volta ao trabalho.

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Já sem química

Nove meses depois, a Eliane – cabeleireira que tem um salão na Liberdade e há mais de 20 anos trabalhando com cabelos afro – me salvou! Permanente afro na cabeça, é hora de recomeçar. Minha vida voltou a ser mais prática e eu mais feliz!

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Menos palavras. Mais atitudes de amor e respeito

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Desde que passei a também ter a função de mãe, mais coisas foram acrescentadas à minha rotina e, consequentemente, me fizeram ter menos tempo para outras, como o blog =/ Mas hoje tive que arrumar alguns minutinhos para umas considerações. Se aqui O Boticário anda causando polêmicas por causa de um comercial em que aparecem casais homossexuais se presenteando no Dia dos Namorados, nos Estados Unidos não é diferente. Lá, um líder evangélico incentivou o boicote a um banco por causa de uma propaganda em que um casal de lésbicas adota uma criança surda.

Sou evangélica e fico inconformada com tamanha falta de bom senso de alguns líderes. Muitas vezes somos taxados de preconceituosos por causa da maneira radical como se colocam. Deixo claro o que a Bíblia diz: “Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’” (Mateus 5:37). Ou seja, precisamos ser pessoas de palavra e ter convicção das nossas posições – embora estas não devam ser atitudes exclusivas dos evangélicos.

No entanto, o que vejo é muita impulsividade e falta de sabedoria no falar. Do jeito como fazem, eles “pedem” para que as pessoas se oponham e tenham total aversão a nós.

Uma amiga lembrou muito bem algo dito certa vez: “As suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz”. Todos sabem qual é o nosso posicionamento como cristãos. Por isso, soltar críticas aos quatro ventos ou sugerir boicotes são absolutamente desnecessários. Aliás, perderam ótimas oportunidades de ficarem quietos e de demonstrar o que Jesus faria: amar. Ele, com toda a sua Santidade, o único que poderia rejeitar as pessoas, não o fez. Como querem que todos conheçam o amor de Deus se vivem “dando tiro no pé”? Se você não concorda, sem problemas! É direito seu. Mas respeite. Quando soube que duas amigas estavam namorando, depois do choque inicial e de processar a notícia que acabara de receber, apenas respondi: “Ok, a escolha é de vocês. Eu não concordo, mas a nossa amizade não vai mudar por causa disso”. E assim convivemos. Ninguém ama “de longe”, sem relacionamento. Então, por favor, menos palavras e mais atitudes de amor e respeito. Obrigada.

Porque eles precisam se sentir seguros

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Depois de cinco meses de licença maternidade e férias, retornei esta semana ao trabalho. Com dois meses do nascimento do Davi eu já pensava (ou evitava pensar) nisso. Com as festas de fim de ano, não deu para fazer adaptação. E agora? Como vai ser ficar o dia todo com pessoas que ele nunca viu? Vai chorar? Vai dar trabalho para dormir? Vão cuidar bem dele? Eu não estarei mais exclusivamente ali com ele… Como toda mãe de primeira viagem, essas eram as minhas preocupações.

Até que o dia finalmente chegou e mais uma vez se comprovou o que me disseram sobre os bebês: eles precisam se sentir seguros. Por vários dias e várias vezes ao dia, conversava com ele, explicando que estaria num berçário com outras crianças; que conheceria pessoas novas e outros bebês, mas que eu também iria vê-lo, que teríamos um tempo só nosso durante as mamadas (sim, tenho o privilégio de ter o berçário coladinho com o trabalho) e ficaríamos juntos na hora do almoço. Sempre sorri, sempre mostrei como algo positivo.

Com o coração apertado e fazendo o máximo para não chorar, o deixei pela primeira vez, logo pela manhã. E ele? Foi todo risonho com a professora! Na hora do almoço, quando vi que estava bem, relaxei. Percebi que quem sofre mesmo com essas transições somos nós e que o segredo é nos prepararmos para elas e prepararmos o nosso filho também. Quer ver outro exemplo?

Com dois meses já não dava mais para o Davi dormir no carrinho ao meu lado. Ele sempre se mexeu demais e ficava batendo os bracinhos nas laterais. E agora? Dormir sozinho no outro quarto? No berço? Sem que eu esteja ali ao sinal do menor resmungo? Por semanas, meu marido e eu dissemos que ele seria “promovido”! Todas as vezes que ele dormia durante o dia, o colocava lá para que se acostumasse com o ambiente, sempre reforçando que era o quarto dele e mostrando os adesivos que colocamos na parede. Depois, passou a dormir lá também no início da noite. No dia da “promoção”, fizemos a maior festa! Resultado: ele dormiu das 23h às 4h e, desde então, dorme lá numa boa!

Por isso, nessa nova rotina, “chororô”? Que nada! Tudo na maior tranquilidade e na mais santa paz!

Aprendendo a ser mãe

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E hoje completa um mês que o Davi nasceu. Um mês que também nasceu uma mãe.

Ter filhos sempre foi um sonho, que só aumentava a cada bebê que eu via. Mas, por trás de crianças felizes, sorridentes ou mesmo daquelas que dormem feito anjinhos, há muita coisa que eu não sabia…

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Sempre fui tranquila e a gestação não foi diferente. Aliás, foi tão tranquila que meu marido não me reconhecia! Rs

O parto não foi como o que sonhei e planejei (“Muitos são os planos no coração do homem; mas o desígnio do Senhor, esse prevalecerá”. Provérbios 19:21). Pretendia um parto humanizado, sem intervenções, numa casa de parto, com a presença do meu marido e de uma doula. Mas não foi assim que aconteceu.

Aguardamos o máximo possível, mas não entrei em trabalho de parto. Acabou sendo cesárea e, apesar de tudo, não fiquei frustrada. Tudo, o tempo todo, desde antes de engravidar estava nas mãos de Deus. Além disso, a cesárea não foi simplesmente agendada, para comodidade do medico e minha também – uma atitude adotada pela maioria e que não concordo. Sugiro que assistam “O renascimento do parto” e busquem informações sobre parto humanizado. Dá para começar por aqui 😉

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Nas últimas semanas enquanto esperava o início do trabalho de parto, tive um momento muito (muito!) introspectivo. Não tinha vontade de responder as inúmeras mensagens que chegavam pelo whatsapp, sms ou Facebook – apesar de saber que eram amigos e familiares, demonstrando carinho, interessados em saber se estávamos bem (desculpe se você foi uma dessas pessoas). Depois que o Davi nasceu, continuei não querendo saber de ninguém. Era um tempo nosso, em que eu queria apenas a família por perto, principalmente na maternidade. Agora, um mês depois é que começo a sair mais da concha.

*     *      *

Durante a gravidez, a gente vai se acostumando com as mudanças pelas quais o nosso corpo passa, mas quando o bebê nasce, elas são repentinas. Não tem mais o peso, muda o equilíbrio, parece que está todo solto dentro de você e andar se torna algo muito estranho no começo. Sem contar as mudanças hormonais e uma hiper sensibilidade que você não sabe de onde vem. Por isso tudo e mais, a mãe que acabou de nascer precisa de tanto cuidado, carinho e atenção quanto o bebê.

*      *      *

Uma vez em casa, veio o medo, a insegurança… E agora? Dou conta? O apoio da maternidade ficou para trás. Como saber se o choro é de fome ou de sede? Ou sono? E se é cólica? Se for, como fazer para passar? Aquele choro doído, aqueles olhinhos suplicantes, pedindo “mãe, me ajuda, por favor!”, chegaram a me fazer chorar também – de desespero, de não saber o que fazer; de estar a madrugada toda acordada ou literalmente “virada” de um dia para o outro. Nessas horas, ter o apoio do marido/pai é tudo – embora ele também tenha tido um momento de jogar a toalha. Mas também somos muito gratos a alguns amigos que nos ajudaram a recuperar a calma e voltar para o eixo.

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Duas lições importantes, muito bem aprendidas:

1. Manter a calma sempre. Mesmo adultos há momentos em que a nossa mãe é tudo o que queremos. Imagine para uma criança que acabou de nascer. Se a mãe não pode ajudar, “ferrou”! A pediatra disse que “os bebês são esponjinhas. Percebem tudo. Se você estiver agitada, pode dar cólica”. Não foi bem o que aconteceu, mas já pude constatar que ele percebe mesmo quando  as coisas estão fora do normal.

2. Seguir meus instintos. Hoje há muita informação disponível para tudo, assim como diversas pessoas próximas têm suas experiências para compartilhar. É tanta coisa, que você simplesmente não consegue ouvir a sua própria voz interior. Por isso, muitas vezes, um “que se dane” é a melhor resposta. Significa que o seu instinto falou mais alto.

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Como disse uma amiga, “ser mãe é desafiador, mas muito recompensador”. Ela tem razão. Não há nada neste mundo que se compare àquele olhar intenso,  meio de canto, durante uma mamada; ou àquele sorrisinho fofo que surge de repente enquanto conversamos.

É… aos 32 anos, eu achava que estava pronta para ser mãe. Na verdade, a conclusão é que eu não estava e, conversando com amigas que desfrutam do prazer, das alegrias e dificuldades (sim, isso também) da maternidade, concordam que, no fundo, ninguém está. Só posso dizer que este primeiro mês até pode ter sido difícil, mas certamente foi um dos mais felizes da minha vida.

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Respeito. Simples assim.

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Acabo de ler no blog Maternar, da Folha, sobre a violência obstétrica que muitas mulheres sofrem na hora do parto. É absurdo pensar que durante um dos momentos mais especiais da vida a mulher seja mal tratada ou sofra com agressões físicas e psicológicas. Pior, é saber que o Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil público para apurar os casos, tamanho o aumento do número de denúncias.

Não, não conheço nenhuma mulher que tenha passado por isso. Ou melhor, pode até ser que eu conheça, mas que, por motivos óbvios, nunca tenha tocado no assunto. No entanto, por causa da internet, ficou fácil ter acesso a inúmeros relatos de quem tenha sofrido com situações como essa.

Muito antes de eu engravidar ou de ter uma prima doula, cesárea era uma das coisas que eu já tinha decidido não passar – a não ser que realmente seja necessária (faço questão de destacar o realmente porque muitos médicos, aproveitando-se do fato de serem médicos e do momento frágil da mãe, do pai e também da família dão desculpas mil para que a cesárea seja feita).

Não é preciso dizer que cesáreas, além de mais convenientes para os médicos e hospitais — afinal, tudo é agendado, programado — são mais lucrativas. O que me deixa indignada é que tudo isso é colocado acima da mãe e do bebê; é colocado acima das pessoas

Praticamente todos têm algum tipo de TV a cabo em casa. Há diversos programas que acompanham o trabalho e o momento do parto. Então, não é difícil ver em outros países é tudo bem diferente. A maioria acontece de maneira normal e, se a mãe opta pelo parto natural, nenhum tipo de anestesia é aplicada. A vontade da mulher é respeitada (falando em programas de TV, o mais irônico é que nas novelas, toda vez que é mostrada uma cena de parto, ele, por acaso, é uma cesárea?).

Tenho prima e amiga que moram na Inglaterra e na Noruega e tiveram seus filhos de partos normais, enquanto aqui no Brasil é esse festival de cirurgias (outra curiosidade: naqueles países a licença maternidade pode chegar a um ano e ainda ser compartilhada com o pai. Aqui, oficialmente são apenas quatro meses e, lendo a carteirinha do pré-natal, entendi o porquê de tão pouco: recomendação médica e nada mais – não trabalhar um mês antes da data prevista para o nascimento do bebê e três após. Algumas empresas aumentaram esse tempo para seis meses, o que é mais compreensível e aceitável, uma vez que a orientação é de que o bebê seja amamentado exclusivamente no peito até este período).

Também não consigo me conformar com uma série de coisas que acontecem contra a vontade da gestante. Diversos procedimentos, como os citados no Maternar, são feitos sem consentimento. Onde está o respeito nisso tudo? Algo muito simples e que tem sido deixado de lado.

Ok, há diversas mulheres que têm seus filhos em maternidades por parto normal e são muito bem atendidas. Fico feliz por elas, mas infelizmente acredito que sejam a exceção e não a regra.

Como esta é uma realidade que não pode ser mudada da noite para o dia, evito ficar pensando nessas situações (até porque estou muito tranquila com tudo), mas estar informada e preparada é sempre bom. Sendo cristã, cabe a mim orar, orar e orar, pedindo a Deus que cuide e prepare cada detalhe, para que tudo corra de uma maneira especial, como tem sido a gestação até aqui e em outras áreas da minha vida.

*    *    *

PS.: não resisto e leio os comentários. Sem palavras para alguns de tão non sense que são. Um deles, inclusive, desmerecendo o post, considerando as autoras “meras blogueiras”. Primeiro: um site como a Folha, jornalístico, não publicaria um conteúdo qualquer, sem apuração. Segundo: basta ver o perfil de quem escreve para ver que ambas são jornalistas e cumpriram o seu papel.

Arte na pele

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Se alguém me perguntasse alguns anos atrás se eu faria uma tatuagem, a minha resposta seria “não. Até acho bonito nos outros, mas não é pra mim”. Mas o tempo passa, as coisas mudam e a gente também (que bom! Tudo seria muito, extremamente chato se fosse igual).

Nas últimas semanas fiquei admirada com o trabalho de alguns desses artistas que têm a pele como o seu papel ou tela de pintura. O motivo é bem simples. Eles não desenham carpas, dragões, rostos, tribais ou símbolos japoneses. Muito menos florzinhas, golfinhos e borboletinhas (nada contra quem tem qualquer uma dessas. Afinal, gosto é gosto e eu só não gosto do comum. Entendo que uma tatuagem tem realmente que ser única. Sim, o que eu gosto mesmo é de exclusividade e de coisas personalizadas 😉 ).

Fiquei um bom tempo olhando os desenhos desses tatuadores – Petra Hlaváčková, que reproduz a técnica da aquarela, Jamie Kam, que faz um estilo design gráfico, Amanda Wachob, que deixa a “marca de pincéis” na pele das pessoas, e Kenji Alucky, que utiliza o pontilhismo – como quem para diante de um Picasso ou de um Van Gogh ou qualquer um desses pintores que estudamos em História da Arte. A qualidade e o estilo dos trabalhos impressionam e refletem a personalidade e identidade de cada tatuador. E isso é interessante. Elas provocam, fazem você parar para observá-las. Você pode até não gostar, mas é impossível ficar indiferente a essas tatuagens.

Tem mais sobre isso no Hypeness.

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Petra Hlavácková

Jamie Kam

Jamie Kam

Amanda Wachob

Amanda Wachob

Kenji Alucky

Kenji Alucky